Desigualdades étnico-raciais no empreendedorismo brasileiro e paranaense
As desigualdades étnico-raciais constituem uma dimensão relevante do empreendedorismo brasileiro, especialmente nas condições de participação, formalização e rendimento.
Por Guilherme Guedes
9/14/20262 min read


Introdução
O empreendedorismo constitui uma forma relevante de inserção econômica no Brasil. Para uma parcela da população, trabalhar por conta própria ou manter um empreendimento representa uma escolha associada à autonomia, à identificação de oportunidades e à geração de renda. Para outra parcela, entretanto, o trabalho por conta própria pode também surgir em contextos nos quais as alternativas de emprego são restritas. Por isso, classificar pessoas distintas sob uma mesma categoria estatística não significa que elas tenham iniciado seus negócios sob condições equivalentes.
Quando essa realidade é observada a partir da raça ou cor, aparece uma contradição central. Pessoas pretas e pardas são maioria entre os donos de pequenos negócios brasileiros, mas permanecem em desvantagem em indicadores econômicos importantes. Em 2025, o Sebrae registrou aproximadamente 15,8 milhões de donos de pequenos negócios negros, equivalentes a 52,3% do total. No mesmo ano, porém, o rendimento médio habitual dos empreendedores negros era de R$ 2.601 e correspondia a cerca de 56% do rendimento dos empreendedores brancos (SEBRAE, 2026).
A questão que orienta este trabalho, portanto, não é simplesmente quantas pessoas negras empreendem. A questão é: se a população negra representa a maioria dos donos de pequenos negócios no Brasil, por que essa presença numérica não se converte em condições econômicas equivalentes às dos empreendedores brancos? A pergunta desloca a análise de uma concepção individualizante do empreendedorismo para a investigação das condições sociais, econômicas, institucionais e psicossociais nas quais diferentes trajetórias se desenvolvem.
O problema é especialmente relevante para a Psicologia porque a desigualdade econômica não se limita aos indicadores de renda ou formalização. Relações de trabalho, reconhecimento, pertencimento, expectativas de competência, redes sociais e práticas institucionais são também experiências humanas. Ao mesmo tempo, seria inadequado transformar uma desigualdade estrutural em um problema psicológico individual. A análise precisa preservar a relação entre sujeito e contexto.
O objetivo geral deste trabalho é analisar como as desigualdades étnico-raciais se manifestam no empreendedorismo brasileiro e paranaense, com foco em participação, formalização e rendimento, e discutir como fatores sociais e psicossociais ajudam a interpretar essas diferenças. Como objetivos específicos, busca-se: (a) distinguir as categorias utilizadas nas estatísticas e na literatura; (b) identificar os principais padrões nacionais e regionais; (c) situar o Paraná nesse quadro; (d) discutir explicações possíveis sem transformar associação em causalidade; e (e) analisar implicações, possibilidades e limites da Psicologia diante do fenômeno.
O trabalho segue a estrutura proposta para a avaliação final da disciplina: introdução, contextualização, discussão crítica, Psicologia e conclusão. A contextualização apresenta os conceitos, dados, pesquisas e marcos normativos necessários à compreensão do problema; a discussão crítica interpreta evidências, contradições e limites; a seção de Psicologia examina efeitos e processos em indivíduos, grupos e instituições; e a conclusão sintetiza o que pode ser afirmado a partir das evidências.
